Emirados Árabes Unidos suspendem comércio com o Irã após novo ataque com mísseis
Os Emirados Árabes Unidos suspenderam todo o comércio com o Irã na quarta-feira, após afirmarem ter sido alvo de novos ataques por parte do país — uma medida que isolará ainda mais a República Islâmica, que já sofre com sanções e um bloqueio impostos pelos EUA.
Disparos de mísseis balísticos acionaram alertas em todo o país na noite de terça-feira, orientando os moradores dos Emirados a buscar abrigo; foi a primeira vez em semanas que tal alarme soou.
No início do conflito, os Emirados foram frequentemente alvo de ataques intensos do Irã, e a maior parte do comércio entre os dois países — que antes eram importantes parceiros comerciais — foi paralisada. No final de junho, com a redução das hostilidades, parte do comércio marítimo foi retomada, segundo a agência de notícias estatal iraniana IRNA.
Além do comércio de produtos de fabricação local, "os Emirados têm sido muito importantes para o Irã como um centro de reexportação, ajudando o país a absorver alguns dos impactos causados pelas sanções", disse à Associated Press Mohammad Farzanegan, professor de economia do Oriente Médio na Universidade de Marburg, na Alemanha.
"Portanto, o Irã depende fortemente dos Emirados, não porque o país produza um terço das importações iranianas, mas porque serve como uma importante porta de entrada para o Irã acessar mercadorias e infraestrutura comercial de terceiros países."
Os Emirados Árabes Unidos acusam o Irã de disparar mísseis; Teerã nega
Após o anúncio de que dois mísseis balísticos haviam sido disparados em direção aos Emirados Árabes Unidos — ambos caindo nas águas do Golfo Pérsico no final da terça-feira —, o Ministério das Relações Exteriores do país informou ter decidido impor medidas punitivas, ao mesmo tempo em que reafirmou seu compromisso com o "diálogo, a cooperação e a integração regional".
A medida suspendeu todas as transações comerciais e financeiras "até segunda ordem", informou o ministério em comunicado.
O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos afirmou que as avaliações indicaram que os mísseis tinham como alvo o tráfego marítimo. Não ficou claro se o alvo eram navios emiradenses ou as águas territoriais do país.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, negou que o Irã tenha disparado quaisquer mísseis em direção aos Emirados Árabes Unidos.
Como parte de seus esforços para manter um controle rígido sobre o Estreito de Ormuz, o Irã tem atacado regularmente navios que tentam utilizar a via navegável, incluindo quatro petroleiros pertencentes à ADNOC — empresa estatal de petróleo e gás de Abu Dhabi — nas últimas duas semanas. Nenhum dos ataques causou ferimentos, mas eles provocaram forte condenação por parte dos Emirados Árabes Unidos e de outros países da região, incluindo Kuwait e Bahrein.
Desde o início do conflito, quase 20 embarcações da ADNOC foram atacadas por mísseis e drones no Estreito de Ormuz, resultando na morte de uma pessoa e deixando outras 20 feridas.
A capacidade do Irã de controlar o tráfego pelo estreito — por onde passava um quinto do petróleo e do gás natural comercializados em tempos de paz — revelou-se sua maior vantagem estratégica na guerra. Embora os EUA e Israel — que iniciaram o conflito em 28 de fevereiro — tenham apresentado diversos objetivos, incluindo a derrubada do governo de Teerã e o fim de seu programa nuclear, o conflito acabou se transformando em uma disputa pelo controle do estreito.
O presidente dos EUA, Donald Trump, insistiu na terça-feira que o estreito estava "aberto e em operação" e publicou um mapa retratando-o como território americano. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, chamou-o de "homem iludido".
Dez embarcações transitaram pelo estreito na terça-feira, segundo o site MarineTraffic; o número representa menos de um décimo do volume que costumava passar pelo local antes do início da guerra, quando não havia restrições.
Durante a guerra, o Irã lançou centenas de mísseis balísticos e milhares de drones em ataques que, segundo Teerã, visavam ativos dos EUA, mas atingiram edifícios em Dubai e Abu Dhabi, o aeroporto comercial de Dubai, portos e infraestrutura energética.
O Irã acusou os Emirados Árabes Unidos e outros aliados dos EUA no Golfo de facilitar ataques militares americanos contra o país, e o chefe do Estado-Maior iraniano, general Ali Abdollahi, emitiu um novo alerta na quarta-feira aos "países da costa sul do Golfo Pérsico".
"Qualquer assistência ou facilitação prestada às forças militares agressoras dos EUA equivale a participar ao lado das forças militares americanas", afirmou ele em um comunicado divulgado pela agência de notícias semioficial iraniana Fars.
O embargo dos Emirados Árabes Unidos pode exercer nova pressão sobre o Irã.
Antes da guerra, os Emirados eram um dos maiores parceiros comerciais do Irã, fornecendo mais de 30% de suas importações — avaliadas em cerca de US$ 21 bilhões, segundo dados mais recentes da Organização Mundial do Comércio (2024) — e servindo de destino para quase 13% de suas exportações, no valor de aproximadamente US$ 7 bilhões.
No entanto, o embargo traz seus próprios riscos, observou Farzanegan
"Como um país relativamente pequeno que busca manter-se como um polo regional de negócios e finanças, ao mesmo tempo em que atrai turistas e investidores, os Emirados dependem fortemente da estabilidade regional", disse ele. "Portanto, qualquer conflito de grande escala com o Irã pode causar danos substanciais à sua economia."
O anúncio dos Emirados ocorre no momento em que os EUA se preparam para exercer nova pressão econômica sobre o Irã. Em declaração feita na semana passada, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que as medidas consistiriam em uma combinação de isolamento econômico e na manutenção do bloqueio aos portos iranianos.
A pressão econômica ocorre na sequência da intensa campanha de bombardeios que teve como alvo infraestruturas industriais e civis, além de alvos militares. O Fundo Monetário Internacional já prevê uma inflação de quase 70% no Irã este ano e uma contração econômica de 5,4%. Paralelamente, a moeda do país, o rial, atingiu mínimas históricas.
Fonte: AP
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