Trump na final do Mundial: vaias, uma dança a mais e dois cumprimentos que não aconteceram
Espanha venceu a Argentina e conquistou o segundo título mundial, mas o perotgonista fora do relvado foi Donald Trump: vaiado duas vezes, recusou-se a sair do palco durante a festa espanhola e viu dois jogadores argentinos evitarem cumprimentá-lo. Mais um episódio de um Mundial que o Presidente norte-americano insistiu em marcar, nem sempre da forma mais correta.
Espanha é campeã do mundo. Mas o que ficará na memória da maioria das 80 mil pessoas que encheram o MetLife Stadium, não foi apenas o golo de Ferran Torres, já no prolongamento, que decidiu a final frente a uma Argentina reduzida a dez desde a expulsão de Enzo Fernández. Foi o som que acompanhou Donald Trump sempre que o seu rosto apareceu. Fosse no ecrã gigante ou, mais tarde, em carne e osso, a poucos metros dos jogadores, a reação foi a mesma: uma vaga de assobios.
O Presidente dos Estados Unidos chegou ao estádio de helicóptero, cerca de 45 minutos antes do apito inicial, e assistiu ao jogo sentado ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, e da primeira-dama Melania Trump. Mal a sua imagem surgiu no ecrã gigante, logo a seguir à interpretação do hino norte-americano por Jennifer Hudson, o estádio respondeu com uma vaga de assobios.
A segunda ronda de vaias chegou horas mais tarde, quando Trump desceu ao relvado, ao lado de Infantino, para participar na cerimónia de entrega de medalhas e do troféu. Muito orgulhoso do seu papel, Trump começou por entregar medalhas aos finalistas vencidos. No meio destes houve dois jogadores argentinos que propositadamente ou por distração, não cumprimentaram o presidente norte-americano, protagonizando os primeiros momentos virais da noite. Lisandro Martínez recebeu a sua medalha das mãos do próprio Trump, mas não lhe estendeu a mão, tal como não cumprimentou Infantino. Poucos minutos depois foi a vez de Cristian "Cuti" Romero, central do Tottenham. Cumprimentou Infantino, apertou a mão à Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e ao primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, ambos presentes na cerimónia, mas passou ao lado de Trump sem lhe dirigir um único gesto. Um contraste com os restantes companheiros de equipa que cumprimentaram Trump normalmente.
Um aperto de mão que não era garantido
Mas o cumprimento mais escrutinado da tarde não foi de um jogador, mas o de um chefe de governo. O Presidente norte-americano e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, encontraram-se frente a frente pela primeira vez em quase dois anos, num camarote VIP onde estavam também o rei Felipe VI, a rainha Letizia e as infantas Leonor e Sofia. O El País descreveu o espaço - protegido por vidro à prova de bala, num estádio sob forte dispositivo de segurança -, como um verdadeiro aquário político, que juntou líderes com pouco em comum entre si e que representavam, no fundo, duas visões opostas do mundo. Ainda assim, Trump cumprimentou Sánchez com cordialidade, apesar de meses de tensão por causa da recusa espanhola em elevar a despesa em defesa para os 5% do PIB acordados na última cimeira da NATO. As relações agravaram-se depois de Madrid ter recusado autorizar o uso de bases militares norte-americanas em território espanhol para aviões envolvidos no conflito com o Irão. Recusa que levou Trump a descrever Espanha, na altura, como "um parceiro terrível". Porém, nas últimas semanas, ambos os lados deram passos para aliviar a tensão, com Espanha a comprometer-se com despesa adicional em defesa e a participar numa missão conjunta na Finlândia. De acordo com o jornal espanhol, o aperto de mão entre os dois líderes marcou o segundo capítulo desta aproximação ainda tímida, depois de um encontro em Ancara no início do mês, no qual, os dois terão conversado sobre futebol e golfe.
No mesmo camarote estavam ainda a Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, ambos com relações complicadas com Trump por causa das suas políticas económicas proteccionistas. Mas Trump tinha um aliado próximo no camarote: Gianni Infantino, que se tem esforçado por acomodar o Presidente norte-americano ao longo de todo o torneio. Antes do apito inicial, o troféu do Mundial foi mesmo levado até Trump. Já durante o jogo, a atenção do Presidente, que diz gostar de futebol apesar de não o entender, pareceu esmorecer: a dada altura chegou a ser visto a adormecer, segundo o El País.
O camarote reuniu ainda figuras de visões políticas muito distintas, como o presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, uma das figuras em ascensão do Partido Democrata, e o antigo futebolista brasileiro Ronaldo "Fenómeno". O rei Felipe VI e a rainha Letizia, por seu lado, desempenharam um papel mais diplomático, ajudando a suavizar o ambiente no camarote ao mesmo tempo que apoiavam abertamente a seleção espanhola.
Fora de cena quem não é de cena
Voltando ao relvado e à entrega do troféu, curiosamente, os jogadores espanhóis não evidenciaram qualquer desconforto em cumprimentar Trump, que mais uma vez voltou a contribuir para a criação de imagens virais após entregar o ceptro mais desejado do futebol a Rodri, o capitão espanhol. O Presidente norte-americano permaneceu junto à equipa enquanto esta erguia o troféu e comemorava, chegando a esboçar alguns passos da sua conhecida “dança”. Foi nesse momento que Infantino tentou conduzi-lo para fora do centro das atenções, deixando a equipa festejar sozinha, num esforço que pareceu ter ficado a meio caminho.
A cena não era inédita. Um ano antes, no mesmo estádio, durante a final da Taça do Mundo de Clubes entre Chelsea e Paris Saint-Germain, Trump tinha protagonizado um episódio semelhante: manteve-se junto ao troféu enquanto os jogadores ingleses celebravam, até Infantino o reconduzir discretamente para um local mais recatado.
A postura de Trump na final não surgiu isolada. Ao longo do torneio, o Presidente norte-americano já se tinha envolvido diretamente nas decisões da competição, num episódio que não abonou em nada para a imagem da FIFA em todo o Mundial. Em causa esteve o cartão vermelho mostrado ao avançado norte-americano Folarin Balogun nos oitavos de final frente à Bélgica - uma expulsão que Trump admitiu publicamente ter contestado junto de Infantino, através de um telefonema em que lhe pediu a revisão da decisão.
A comissão disciplinar da FIFA acabou por suspender a sanção, permitindo a Balogun alinhar no jogo seguinte, que os Estados Unidos acabariam por perder por 4-1 frente à Bélgica. Esta situação só veio reforçar as críticas sobre a proximidade entre Infantino e o Presidente norte-americano ao longo de todo o torneio
Da final de 2026, além do resultado desportivo, ficou também o contraste entre um Presidente recebido com vaias por parte do público, um capitão espanhol que aceitou o troféu das suas mãos sem hesitação, dois jogadores argentinos que preferiram não lhe estender a mão, e um primeiro-ministro espanhol que, depois de meses de tensão diplomática, se cruzou com ele pela primeira vez num camarote de futebol.
Fonte: Expresso
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