Em 24 horas, 60 mil pessoas entraram em Ceuta. Há 34 mortos, e UE promete apoio a Espanha
As forças de segurança espanholas estimam que cerca de 60 mil pessoas tenham entrado irregularmente em Ceuta, no norte de África, nas últimas 24 horas. Pelo menos 34 morreram afogadas, enquanto Espanha e Marrocos aceleram repatriamentos e Bruxelas oferece apoio a Madrid.
O presidente do governo autónomo de Ceuta revelou esta sexta-feira que, de acordo com algumas estimativas, 60 mil pessoas entraram na cidade espanhola de forma irregular nas últimas 24 horas e estão confirmadas 34 mortes nesta crise. A cidade vive "uma situação insustentável", disse Juan Jesus Vivas.
Os números divulgado pelo presidente do governo autónomo de Ceuta são superiores aos divulgados pelo Governo de Espanha, que apontava para 49 mil entradas.
Em Ceuta vivem cerca de 83 mil pessoas, de acordo com os censos mais recentes da população, o que significa que o número estimado de entradas corresponde a mais de metade da população do enclave. "Para fazerem uma ideia, é como se em 24 horas 34 milhões de pessoas entrassem no território espanhol. Este número mostra que é impossível assimilar esta pressão", afirmou Juan Jesus Vivas, em declarações aos jornalistas.
A cidade viveu uma crise semelhante em 2021, mas o número de entradas foi substancialmente inferior. Na altura entraram no território 10 mil pessoas em 48 horas.
Na quinta-feira, milhares de pessoas avançaram para a fronteira a partir de Marrocos, tentando entrar no enclave espanhol a nado, a pé ou saltando a vedação que separa os dois territórios, pelo menos 34 morreram afogados.
O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, descreveu “aquilo que aconteceu no dia de ontem como um ataque, uma violação da integridade territorial de Espanha”. Nas declarações que prestou esta sexta-feira, condenou a situação e prometeu “usar todos os recursos do Estado para garantir a segurança” dos cidadãos de Ceuta.
No início deste mês, o Supremo Tribunal de Espanha decidiu que os migrantes intercetados no mar enquanto tentam chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos de forma sumária ao abrigo do regime especial de rejeição na fronteira aplicável aos enclaves. E Sanchéz retira, do contacto com as autoridades marroquinas, que as redes de tráfico humano fizeram uma “leitura interessada” desta decisão. Perante a decisão judicial, explica, tinha já sido agilizado o estabelecimento de um centro de detenção temporário de estrangeiros para facilitar os procedimentos de documentação, triagem e repatriamento das chegadas irregulares. “Esta situação é inédita, quebra a dinâmica que estávamos a registar em toda a Espanha de redução sistemática de chegadas de imigrantes irregulares”, comentou.
Meios de comunicação social espanhóis com jornalistas no local relataram que o dispositivo policial destacado para os dois lados da fronteira não conseguiu travar a avalanche de pessoas.
Como já tinha acontecido durante a madrugada, continuavam esta manhã a cruzar a fronteira "numerosas pessoas", escreveu a agência Europa Press. Ao mesmo tempo, as ruas de Ceuta "amanheceram com centenas de jovens migrantes a dormir nas ruas enquanto continua a chegada irregular desde Marrocos", descreveu o El País.
A EFE avançou que o movimento na fronteira se fazia, entretanto, nos dois sentidos, com "centenas de migrantes" que entraram em Ceuta a começarem também a regressar a Marrocos pelo mesmo ponto onde tinham entrado, junto ao pontão fronteiriço da zona de El Tarajal.
"De forma paralela, continuam a entrar na cidade pequenos grupos de pessoas pelo mesmo local, cruzando-se no caminho com os que abandonam Ceuta em direção a Marrocos", acrescentou a agência.
A EFE testemunhou ainda, no lado marroquino, na cidade de Fnideq, "confrontos violentos" junto à fronteira com Ceuta, envolvendo centenas de pessoas que tentavam atravessar para o lado espanhol.
"Grupos de pessoas tentaram forçar a vedação e lançaram pedras contra as forças de segurança mobilizadas para a zona", relatou a EFE.
O Governo espanhol anunciou na quinta-feira o envio das Forças Armadas para apoiar a Guarda Civil na "manutenção da segurança" na cidade e reforçou igualmente os meios das forças de segurança. Segundo os meios de comunicação social no local, o Exército espanhol está já a posicionar tanques no acesso à cidade, junto à fronteira com Marrocos, na zona de El Tarajal.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, deslocam-se esta sexta-feira a Ceuta. Por seu lado, as autoridades marroquinas reforçaram os controlos para reduzir a pressão sobre a fronteira.
Os dois governos garantiram na quinta-feira estar a cooperar estreitamente na gestão desta crise, que, segundo ambos, foi promovida por redes de tráfico humano, e anunciaram um acordo para acelerar o repatriamento das pessoas que entraram irregularmente em Ceuta.
Entretanto, a Comissão Europeia declarou estar a acompanhar "de perto" a situação e disponibilizou apoio adicional a Espanha, incluindo assistência financeira, técnica e operacional, através da Frontex, se necessário.
Bruxelas saudou ainda "a estreita cooperação entre Marrocos e Espanha" para gerir a crise e garantir o regresso rápido das pessoas que entraram irregularmente, de acordo com a legislação aplicável. "Marrocos é um parceiro-chave e de confiança da União Europeia", afirmou um porta-voz da Comissão, citado pela EFE.
Também o comissário europeu para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, falou com Fernando Grande-Marlaska para transmitir a disponibilidade da União Europeia para reforçar o apoio a Espanha e assegurar a coordenação com as autoridades marroquinas, com o objetivo de evitar novas travessias perigosas.
Entretanto, o Partido Popular Europeu (PPE), o maior grupo político do Parlamento Europeu, anunciou que vai propor um debate sobre os "fluxos descontrolados de imigrantes irregulares para Ceuta", defendendo um reforço das fronteiras externas da União Europeia e uma avaliação do impacto das regularizações extraordinárias na pressão migratória.
Fonte: Expresso
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