Quem detém as maiores reservas de petróleo de emergência?

 O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão levou dezenas de países a recorrer às suas reservas de petróleo de emergência. Mas o que são, exatamente, as reservas estratégicas e quem detém as maiores reservas mundial?

Quando 32 países decidiram, esta semana, recorrer às suas reservas de emergência de petróleo bruto, numa tentativa de estabilizar os preços em alta, esta medida foi rapidamente ofuscada pela escalada dos ataques do Irão no Estreito de Ormuz.

Os membros da Agência Internacional de Energia (AIE - em inglês : International Energy Agency – IEA), uma coligação dos principais países consumidores de energia, concordaram na quarta-feira (18.03) em libertar centenas de milhões de barris de petróleo das suas reservas estratégicas.

Em vez de ajudar a baixar os preços do petróleo, o preço do crude Brent subiu para cerca de 100 dólares (87,30 euros) por barril no final da semana, tendo atingido um pico de 119,50 dólares por um curto período na segunda-feira (16.03).

Por volta do anúncio, o Irão intensificou os seus ataques perto ou no Estreito de Ormuz, atingindo vários navios comerciais — incluindo petroleiros e navios de carga — com projéteis, drones e explosivos.

Desde o início da guerra, a 28 de fevereiro, Teerão bloqueou efetivamente o estreito, utilizado pelos países do Golfo para exportar um quinto do petróleo bruto e do gás do mundo, principalmente para a Ásia, interrompendo quase todo o tráfego de petroleiros.

Os principais produtores de petróleo da região, incluindo a Arábia Saudita, o Iraque, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos, também reduziram a produção, uma vez que as suas reservas internas se aproximam da capacidade máxima, aumentando ainda mais as preocupações quanto à estabilidade do mercado energético.

O que é uma reserva estratégica de petróleo?

Uma reserva estratégica de petróleo é um stock de petróleo bruto controlado pelo Governo, destinado a ser utilizado em caso de interrupções no abastecimento ou emergências de mercado.

A primeira reserva moderna foi criada pelos Estados Unidos em 1975, depois de o embargo petrolífero árabe ter exposto a vulnerabilidade do abastecimento energético global.

Esse choque quadruplicou o preço do petróleo, provocando escassez de combustível em todo o Ocidente e revelando o quão vulneráveis as economias estavam a cortes repentinos no abastecimento.

Atualmente, dezenas de países — na sua maioria membros da AIE — mantêm reservas estratégicas como parte de um sistema coordenado para proteger a segurança energética.

Em conjunto, os membros da AIE mantêm mais de 1,2 mil milhões de barris de reservas públicas de emergência, complementadas por cerca de 600 milhões de barris detidos pela indústria.

Acredita-se que a China possua as maiores reservas de emergência, seguida pelos EUA. Embora Pequim mantenha em segredo os números exatos, a empresa de análise de energia e transporte marítimo Vortexa estimou as reservas totais do país em 1,3 mil milhões de barris.

Estima-se que essas reservas sejam suficientes para manter a economia chinesa a funcionar durante um período de três a quatro meses.

A reserva federal dos EUA, de 415 milhões de barris, complementada por 439 milhões de barris detidos por entidades privadas, equivale a mais de 40 dias de abastecimento de emergência.

Que quantidade de petróleo que os membros da AIE concordaram em disponibilizar?

A AIE anunciou que os seus membros irão libertar 400 milhões de barris de petróleo das suas reservas de emergência. Em comparação, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o recorde anterior de barris libertados era de 182 milhões.

A agência energética sediada em Paris afirmou que as reservas serão disponibilizadas gradualmente, de acordo com as circunstâncias de cada país.

Os EUA liderarão com uma contribuição de 172 milhões de barris da sua Reserva Estratégica de Petróleo (SPR), a partir da próxima semana. Prevê-se que as entregas dos EUA sejam realizadas ao longo de 120 dias.

O Japão afirmou que iria libertar cerca de 80 milhões de barris, o equivalente a cerca de 45 dias de abastecimento interno, recorrendo tanto às reservas do setor privado como às reservas estatais.

Outros contribuintes incluem a Alemanha, a Austrália, a França, a Coreia do Sul e o Reino Unido.

Espera-se que os membros da AIE mantenham reservas de emergência correspondentes a cerca de 90 dias de importações líquidas de petróleo. Uma exceção permite que grandes exportadores como os EUA — o maior produtor mundial de petróleo — mantenham reservas menores.

O que faz a China?

Os exportadores líquidos puros, como o Canadá, o México e a Noruega, não possuem reservas de emergência, mas podem recorrer aos inventários comerciais em situações de crise.

A Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) dos EUA é composta exclusivamente por petróleo bruto, armazenado em cavernas subterrâneas de sal ao longo da Costa do Golfo.

Outros países, incluindo na Europa, mantêm produtos mais diversificados, incluindo gasolina, gasóleo e combustível para aviões, nas suas reservas estratégicas.

A China, que não é membro de pleno direito da AIE, não fez qualquer anúncio semelhante e está, em vez disso, a dar prioridade à segurança do abastecimento interno, suspendendo as exportações de combustíveis refinados.

O mais recente plano económico quinquenal de Pequim, anunciado na semana passada, prevê uma nova expansão das suas reservas estratégicas de petróleo, dando continuidade a anos de forte acumulação de reservas.

Será que as reservas vão ajudar a fazer baixar os preços do petróleo?

Os analistas do setor petrolífero afirmam que o recurso às reservas estratégicas pode aliviar a pressão imediata sobre os mercados petrolíferos, mas raramente resulta numa queda drástica ou duradoura dos preços.

Estas libertações funcionam principalmente como um sinal de unidade e de oferta adicional, tranquilizando os operadores de que os governos estão dispostos a intervir caso a escassez se agrave.

A AIE afirmou que a libertação cobre apenas cerca de três a quatro semanas de fluxos de petróleo perdidos da região do Golfo.

Assim, embora possam reduzir o preço do petróleo em alguns dólares, espera-se que o efeito seja limitado, uma vez que os volumes libertados são pequenos em comparação com o mercado global de petróleo de 100 milhões de barris por dia.

O analista David Morrison, da corretora britânica Trade Nation, foi citado pela agência de notícias AFP afirmando que, se as medidas simultâneas de dezenas de países "pretendiam limitar os preços, então falharam redondamente".

Ele afirmou que o mercado pode ter interpretado o gesto como "pânico", dado o encerramento de facto pelo Irão do vital ponto de estrangulamento de Ormuz e as recentes escaladas.

Capital Economics, sediada em Londres, afirmou que os preços provavelmente subirão se o estreito de Ormuz permanecer fechado por um período mais longo.

"Embora a AIE ainda tenha reservas para recorrer após esta libertação, um conflito mais prolongado poderia levar a perdas superiores às reservas totais detidas diretamente pelos membros da AIE", escreveu Hamad Hussain, economista especializado em clima e matérias-primas da Capital Economics, numa nota de pesquisa.

Fonte: DW



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