Países africanos podem ajudar na crise global do petróleo?

 Podem países africanos como Nigéria e Angola aumentar a produção de petróleo a curto prazo para aliviar a crise causada pela guerra no Médio Oriente? Especialistas dizem que não é simples.



O encerramento do Estreito de Ormuz, ao largo da costa do Irão, é de importância central para o comércio de petróleo e gás natural liquefeito. Cerca de um quinto do transporte mundial de petróleo tem passado por este ponto de estrangulamento. Isso aumenta os receios de abastecimento entre os compradores e levanta questões sobre fontes alternativas — por exemplo, em África.

Poderão os países africanos produtores de petróleo aumentar a sua produção a curto prazo e, assim, estabilizar os preços no mercado mundial? "Os países africanos desempenham apenas um papel secundário a curto prazo", afirma Robert Kappel à DW. "Podem ajudar, mas não com a rapidez nem na escala necessárias", diz o antigo presidente do Instituto GIGA, em Hamburgo.

África não desempenha um papel relevante a curto prazo no abastecimento energético

Por exemplo, a Nigéria voltou a aumentar a sua produção. No entanto, para produzir mais, seriam necessários investimentos — e, na melhor das hipóteses, só a médio prazo existiria margem para agir. Países mais pequenos, como os Camarões e a Guiné Equatorial, não dispõem de reservas e não conseguem aumentar a produção.

Outro fator: "As grandes petrolíferas internacionais que operam em países africanos reduziram os seus investimentos nos últimos anos, venderam parcialmente ativos a governos ou empresas nacionais e travaram o desenvolvimento de novos campos petrolíferos", afirma Kappel. As capacidades terão, portanto, de ser novamente ampliadas com esforço antes que África possa desempenhar um papel relevante nos mercados internacionais de petróleo.

África só poderá dar um contributo limitado a curto prazo face à atual crise de abastecimento e de preços do petróleo e do gás, afirma também Stefan Liebing, diretor-geral da empresa de investimentos Conjuncta, focada no continente africano. "O papel de África é mais relevante a médio prazo, sobretudo no fornecimento de gás natural", disse Liebing à DW. Desde 2022, países europeus têm procurado gás africano, numa tentativa de reduzir a dependência da Rússia e evitar financiar a guerra na Ucrânia.

Perante a crise climática e os objetivos do Acordo de Paris, a economia mundial deveria já estar a reduzir o consumo de combustíveis fósseis. No entanto, a curto prazo, a dependência do petróleo continua a ser tão elevada que a subida dos preços, desde o início dos ataques norte-americanos e israelitas ao Irão, poderá ter consequências imprevisíveis para empresas, governos e consumidores em todo o mundo.

A Nigéria, maior produtor de petróleo em África, tem "claramente potencial” para aumentar a produção, afirma o analista nigeriano Ayodele Oni à DW. No entanto, o país não dispõe atualmente de capacidade técnica e operacional suficiente para responder a perturbações globais no abastecimento. "O maior obstáculo é a ausência de uma capacidade de reserva significativa", explica.

Segundo o relatório mensal do mercado petrolífero da Agência Internacional de Energia (AIE) de março de 2026, a produção da Nigéria foi de 1,42 milhões de barris por dia, com capacidade adicional disponível igual a zero. "Isto significa, na prática, que o nível atual de produção já reflete o máximo que o país consegue manter a curto prazo”, afirma Oni. "Não existe margem que possa ser rapidamente ativada para responder a choques do mercado."

Onde falha a indústria petrolífera degradada da Nigéria

Entre os principais problemas da indústria petrolífera nigeriana estão as infraestruturas deficientes, uma rede de oleodutos envelhecida, subfinanciamento e questões de segurança no Delta do Níger, o centro da produção petrolífera do país. Além disso, os longos prazos de desenvolvimento de grandes projetos, especialmente em águas profundas, dificultam um aumento rápido da produção. "Nestes projetos, podem passar vários anos entre a aprovação do investimento e a primeira extração de petróleo. Isso significa que, mesmo com preços globais mais elevados, não surgirão novas quantidades no curto prazo", sublinha Oni.

Embora a Nigéria não tenha adotado medidas específicas em resposta à atual crise global, existem há vários anos iniciativas para aumentar a produção de petróleo e gás que estão agora a ser reforçadas. Um dos principais exemplos é o projeto governamental "One Million Barrels", que aposta na reativação de poços inativos, na aceleração de intervenções e na redução de entraves regulatórios que atrasavam as operações. As reformas fiscais em curso visam também atrair investimento e apoiar o crescimento da produção.

Apesar de melhorias na área da segurança, da redução do roubo de petróleo e de uma melhor monitorização, a produção continua longe dos níveis que o Governo do Presidente Bola Tinubu tinha definido como objetivo no início do mandato, escreve Clementine Wallop, analista sénior para a África Subsaariana da consultora Horizon Engage, à DW. "Nesta situação de crise, a Nigéria vai continuar com todas estas iniciativas. Mas não existe um botão mágico que se possa simplesmente carregar para que o país beneficie dos preços mais elevados e alivie a crise de abastecimento no mercado."

Outro problema — embora mais relevante para o mercado interno do que para a economia global — são as refinarias estatais degradadas. Segundo o analista Oni, a Nigéria tem dependido em grande medida da importação de combustíveis refinados, exportando frequentemente petróleo bruto para depois comprar gasolina e gasóleo com essas receitas. Desde 2024, esta situação melhorou: em Lagos, a maior refinaria privada de África, construída pelo multimilionário Aliko Dangote, processa diariamente 650 mil barris. A refinaria Dangote abastece o mercado interno com cerca de 60 milhões de litros de combustíveis por dia. Ainda assim, Oni considera que o seu impacto é sobretudo regional, reforçando o abastecimento na Nigéria e na África Ocidental, mais do que a nível global.

Quanto petróleo poderá Angola colocar no mercado?

segundo maior produtor de petróleo da África Subsaariana é Angola. O país, situado no sudoeste do continente, saiu em 2023 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), para ganhar maior flexibilidade na definição das quantidades e do momento em que coloca petróleo nos mercados internacionais. Luanda tem vindo a investir fortemente no aumento da produção e na exploração de reservas de gás natural para o mercado de gás natural liquefeito (GNL), afirmou à DW o especialista angolano em energia Flávio Inocêncio: "Angola voltou a tornar-se atrativa para investidores ocidentais devido à guerra na Ucrânia e à crise no Médio Oriente."

O Governo angolano tem adotado, para já, uma postura cautelosa. A agência Bloomberg citou o ministro da Economia, José de Lima Massano, a 6 de março, afirmando que a subida dos preços traz sempre "notícias positivas" para os países produtores de petróleo. Ainda assim, alertou que o aumento dos custos de transporte poderá encarecer as importações de outros bens essenciais para o país.

Mesmo que países africanos como a Nigéria e Angola conseguissem aumentar a produção de petróleo a curto prazo, não seriam capazes de compensar as quebras no Médio Oriente, explica o analista Inocêncio. "África produz apenas cerca de 10% da produção global. Não é suficiente para substituir os cerca de 20 milhões de barris de petróleo que passam diariamente pelo Estreito de Ormuz."

Fonte: DW



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