Irão: Media ocidental censurada na cobertura do conflito?

 A informação divulgada pelo Ocidente sobre a guerra contra o Irão "não está equilibrada", alerta um especialista, avisando para o risco de perda de credibilidade de uma imprensa até agora considerada livre.

A imprensa ocidental e israelita estão a autocensurar-se na cobertura da guerra com o Irão, considera o especialista em resolução de conflitos Aly Jamal. Aos seus olhos, essa imprensa reporta mais sobre a situação no Irão do que sobre Israel e os países do Médio Oriente. E as consequências são a promoção de um espaço de fake news ilimitado, acrescenta. Os objetivos da postura parcial, de acordo com Jamal, são manipular a opinião pública e esconder os problemas reais da guerra para não desanimar os seus cidadãos. A DW entrevistou o académico moçambicano. 

DW: As redes sociais permitem um acesso às verdades da guerra, dificultando narrativas vitoriosas. O ocidente estava a contar que esse instrumento poderia jogar contra si?

Aly Jamal (AJ): Eu acho que sim, no ocidente está a haver algum tipo de censura, uma censura muito grande que em condições normais não ocorre no ocidente. A imprensa no ocidente é livre. E o mais grave ainda, não são só as cadeias públicas que estão a fazê-lo, mas as grandes cadeias privadas também estão a entrar numa espécie de censura. Na verdade, a informação não está equilibrada, há mais informação disponível sobre o que vai acontecendo no Irão do que sobre o que está  acontecer em países como Israel. E esta censura muito grande torna o espaço das fake news ilimitado e nós ficamos confusos. E quem promove isso faz com alguma intenção que é mais ou menos manipular a opinião pública, esconder os problemas reais da guerra para não desanimar os seus cidadãos, etc. Eu acho que que isto está a acontecer, de facto. Não era esperado que a esta altura da crise as agência de informação fizessem um silêncio em relação à alguma coisas que estão a acontecer no terreno.

DW: Estarão os media internacionais privados com receio de perder o estatuto que têm e por isso compactuando com essa narrativa assente na censura como diz?

AJ: Acho que por uma lado sentem que perderão a posição de correspondência e eles preferem aceitar as condições impostas, não promever determinado tipo de informações para continuarem no terreno a ganhar espaços privilegiados de informação. Mas enquanto fazem isso, fica claro que uma boa franja da opinião pública também percebe que alguma coisa anormal está a ocorrer. Então, eles querem manter a posição de informador, mas ao aceitarem limitar o tipo de informação que transmitem estão a autocensura-se. Nós no terceiro mundo dissemos muito isto: Os estados democrático não têm imprensa livre, imprensa livre só serve para estados não democráticos para serem um veículo de crítica aos estados não democráticos. Não era esperado que a democracia europeia a esta altura, que os estados europeus vivessem esse tipo de censura. Israel também é uma democracia, mas está a fazer esse tipo de censura.

DW: Neste contexto, essa imprensa corre o risco de vir a falar para o boneco nos próximos tempos se continuar nesse tom?

AJ: Não necessariamente, mas vir a ser um bocado descredibilizada. A imprensa não pode fazer um serviço que os EUA ou Israel sugerem que devem fazer, deixando de reportar aquilo que usualmente no terreno das operações deve ser reportado. Há pouca informação a sair de Israel e dos países do Golfo. Eles vão perder a credibilidade de bons informadores isentos.

DW: Apesar do suposto cerceamento das liberdades em Israel, as notícias que mais chegam, pelo menos nas redes sociais, são de danos infligidos a este país. As imagens não escondem, pelo menos as verdadeiras. Qual o seu comentário em relação a este suposto esforço de Israel em limitar a informação?

AJ: Israel não quer colocar a verdade do que está a acontecer perante ao grande público. Fazendo, pode estar a transmitir a sensação de que há uma impotência de Israel em travar isso. E o discurso formal sempre foi de que "nós somos superiores, de que em 10 dias iliminamos a capacidade do Irão, de que estamos preparados para a auto-defesa", mas a verdade no terreno operacional é um pouco questionável. Israel sempre viveu com a ideia de que ele tem a capacidade de derrotar tudo no Médio Oriente, mas agora está a encontrar dificuldades que não esperava. Quer manter a moral da população elevada face às contigências não esperadas da crise.

Fonte: DW




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