Guerra no Médio Oriente está a travar fertilizantes e ameaça a produção de alimentos

 Numa altura em que os agricultores se preparam para as próximas colheitas, a guerra no Médio Oriente está a dificultar o acesso a fertilizantes essenciais, com impactos que podem sentir-se nos preços dos alimentos nos próximos meses.

A guerra no Médio Oriente pode transformar-se rapidamente numa crise alimentar global, não por falta imediata de alimentos, mas porque pode comprometer, desde já, as colheitas que ainda estão por vir.

O bloqueio no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do comércio mundial, está a travar o transporte de fertilizantes numa altura decisiva do calendário agrícola. De acordo com os dados citados pelo jornal “Público”, por esta via passa cerca de um terço do comércio global destes produtos, o que significa que qualquer disrupção tem impacto imediato no abastecimento mundial.

Ao mesmo tempo, a produção também está a ser afetada. Segundo o “Financial Times” (FT), os ataques do Irão atingiram instalações e exportações de ureia - o fertilizante azotado mais utilizado - levando a que cerca de metade das cargas previstas nas últimas semanas não tenha sido entregue. Parte significativa dos carregamentos está também retida na região do Golfo, agravando a escassez.

Os fertilizantes, sobretudo os que são feitos à base de azoto, são essenciais para a produtividade agrícola. Cerca de metade dos alimentos produzidos no mundo depende da sua utilização, lembra Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal, citado pelo “Público” . Sem eles (ou com menos quantidade dos mesmos) as colheitas diminuem e os preços tendem a subir.

timing também não podia ser pior. É nesta fase do ano que muitos países iniciam as plantações de primavera e verão, sendo crucial aplicar fertilizantes antes do crescimento das culturas. “A natureza não espera”, sublinha o mesmo responsável, alertando que a aplicação tardia deixa de ter impacto na produção .

A crise agrava-se com a energia. A produção de fertilizantes depende do gás natural, cujo preço disparou com o conflito, levando fábricas em países como Índia, Paquistão e Bangladesh a reduzir ou suspender atividade. O resultado já se reflete nos preços: a ureia (um fertilizante à base de azoto, essencial para aumentar a produtividade das culturas) subiu mais de 40% desde o início da guerra, de acordo com o FT.

Especialistas ouvidos pelo mesmo jornal alertam que esta crise pode ser mais grave do que a de 2022, provocada pela guerra na Ucrânia, porque afeta simultaneamente várias peças do sistema alimentar: fertilizantes, energia e logística. Como o mercado é global e apenas uma parte da produção é transacionada internacionalmente, qualquer quebra na oferta acaba por ter efeitos rápidos e amplificados.

As consequências estendem-se a toda a cadeia alimentar. Com fertilizantes mais caros, os agricultores podem reduzir a produção ou mudar de culturas (por exemplo, substituir milho por soja, que exige menos adubo), o que altera a oferta global e pode encarecer produtos como carne, leite ou ovos, conforme explica Luís Mira. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos energéticos encarece o transporte e o processamento dos alimentos.

O impacto social pode ser significativo. As Nações Unidas, através do Programa Alimentar Mundial, admitem que, se o conflito se prolongar, até 45 milhões de pessoas podem cair em situação de fome aguda até meados do ano, elevando o total global para níveis recorde, sobretudo em regiões dependentes de importações, como partes de África e da Ásia.

Fonte: Expresso



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