Guerra dos EUA no Irão "é parecida com a operação militar especial que a Rússia desenvolveu sobre a Ucrânia"

 

Almirante Fernando de Melo Gomes vê várias saídas para a guerra desencadeada há quase três semanas, mas nenhuma delas é boa. Com a continuação e até o alargar dos ataques, o antigo chefe do Estado-Maior da Armada lembra que para começar uma guerra "basta um", mas para a acabar "são precisos pelo menos dois."

Tendo em conta os ataques que estão em curso neste momento, sobretudo com alvos de infraestruturas energéticas, temo que seja a escalada efetiva desta guerra…

A administração Trump, de início, instou Israel para que não atacasse as instalações petrolíferas do Golfo. Exatamente porque temia, e julgo que esta é uma medida coerente, que o Irão pudesse retaliar e atacasse essas instalações, provocando ainda mais um aumento do preço do petróleo, como aliás está a acontecer neste dia de hoje, em que o petróleo chegou, penso eu, aos 110 dólares por barril.

Só me parece que tudo isso que se queria evitar é o que está a acontecer neste momento…

Enfim, o que está a acontecer neste momento, de facto, é uma retaliação do Irão, não só sobre as instalações militares que estão nos países do Golfo, mas também sobre as instalações petrolíferas. E nós não nos podemos esquecer que o lobby petrolífero nos Estados Unidos foi o grande financiador da campanha do presidente Trump. E, portanto, vê com muito maus olhos um desgaste, não só das instalações, mas até a quebra dos fornecimentos.

Isso significa que atacar os países próximos dos Estados Unidos na região, nomeadamente estas infraestruturas relativas a petróleo e também a gás natural, poderá ser a forma mais eficaz de fazer Donald Trump recuar?

Eu ia um bocadinho mais atrás e dizia que a entrada nesta operação militar, que é parecida com a operação militar especial que a Rússia desenvolveu sobre a Ucrânia, coloca uma situação de lose-lose em termos da teoria de jogos. Ou seja, qualquer das opções é má. A saída é má porque é um desprestígio para os Estados Unidos, porque não atingem os seus objetivos, porque o Irão continua a ter a possibilidade de desenvolver a arma nuclear, porque os mísseis balísticos continuam a lá estar e, portanto, podia espalhar, de facto, a instabilidade no Golfo, que é uma zona extremamente sensível. A continuação da guerra, obviamente, tem um desgaste financeiro muito significativo. Nós não podemos esquecer que a primeira semana custou aproximadamente 11,5 mil milhões de dólares. Só em munições nos dois primeiros dias foram perto de 6 mil milhões de dólares.

E depois há todo o resto do impacto...

Além disso, dentro dos Estados Unidos, e essa é a questão absolutamente fundamental, as sondagens não estão favoráveis ao envolvimento nesta operação militar.

Esta operação conjunta com Israel poderá, de alguma forma, ter perdido o autocontrolo quando vemos os Estados Unidos a demarcarem-se do ataque que foi feito hoje à maior reserva de gás natural mundial, que é gerida pelo Irão e pelo Catar. Parece haver aqui uma descoordenação, tendo em conta os objetivos de cada uma das partes?

Pois, eu julgo que os objetivos também são diferentes. Enquanto a administração dos Estados Unidos se envolveu nesta operação no sentido de, de facto, degradar as capacidades militares do Irão, não se debruçando muito sobre a mudança da liderança, para Israel a mudança da liderança e a decapitação do regime era fundamental. Portanto, há aqui, logo de início, na minha perspetiva, uma zona cinzenta. E depois, como acabei de lhe dizer, sobre o ataque às instalações petrolíferas e de gás, o que está a passar é uma retaliação que traz graves prejuízos para o todo o mundo, principalmente.

No primeiro ataque de hoje, à tal reserva de Pars, disparou, o preço do petróleo. Poderá ser uma noite definidora para o rumo desta guerra? O Irão diz que se for atacada a indústria petrolífera, o Irão vai destruir toda a infraestrutura dos outros países da região.

Uma coisa são as declarações, outra coisa é a capacidade para o fazer. Nós sabemos que nunca se mente tanto como na guerra, nas eleições, ou depois de uma caçada, como dizia Bismarck. E, portanto, quer dizer, eu acredito que essa intenção esteja presente numa situação de grande fragilidade que o Irão pode ter e de estar numa situação de tudo ou nada e enveredar por esse caminho. Esse é um perigo claro, como é um perigo muito significativo, a internacionalização do conflito.

No caso da Venezuela, os Estados Unidos deixaram de alguma forma uma saída para o regime. Aqui não parece haver essa via. Encurralar totalmente o regime, nesta fase, poderá ser mais perigoso ainda?

O que eu acho que é perigoso é encetar uma guerra sem ter uma estratégia de saída. E estarmos dependentes, nestas operações, dos estados de humor da administração. O presidente Trump disse que tinha o feeling que era esta a altura para atacar. E que sairia quando tivesse também o feeling, ou seja, que os seus ossos, ipsis verbis, sentissem que devia sair. Eu acho que isto evidencia não só o caráter da liderança, mas também um certo messianismo de infalibilidade que normalmente conduz a questões desastrosas para quem envereda por esse caminho.

Incapacidade também de explicar o que está a acontecer, porque Donald Trump tem vindo a referir que do ponto de vista militar foi obliterada a capacidade iraniana e o que vemos esta noite é que há mísseis balísticos ainda a serem lançados, atingindo alvos. Ainda existe capacidade militar?

Existe capacidade. Eu não tenho dúvidas que há uma degradação séria da capacidade da Marinha, da capacidade da Força Aérea iraniana, uma degradação muito séria, mas a Guarda Revolucionária e o Exército, que são perto de 900 mil elementos - não é uma coisa menor - praticamente está intocada e isso evidencia-se na retaliação que o Irão tem estado a fazer e que é capaz de fazer no futuro em relação não só aos Estados do Golfo, também para fora. Nós vemos que mesmo no Líbano as questões não têm sido propriamente fáceis de resolver e não vão ser fáceis de resolver.

E perante isso, tem o presidente dos Estados Unidos a capacidade de decretar um fim? A partir do momento em que pretenda decretá-lo, acabará?

Na guerra, para começar basta um, para acabar são precisos pelo menos dois e, portanto, o futuro o dirá. Eu penso que não é em quatro semanas que este assunto vai estar resolvido, que vamos ter um impacto muito sério durante muito mais tempo. Julgo que ninguém consegue adivinhar qual vai ser o futuro de saída destas circunstâncias, mas nós sabemos, temos a experiência própria, que estes desenvolvimentos que o presidente Trump sempre disse que não queria de maneira nenhuma travar as guerrinhas, ispis verbis, no Médio Oriente, sabe-se como começam, mas não se sabe bem como acabam. Nós temos o exemplo do Afeganistão, que é paradigmático em relação a isso. Portanto, nós temos de ir avaliando estas circunstâncias, não podemos dizer que esta guerra é uma guerra que é só dos outros, esta é uma guerra que tem... É uma guerra não, é uma operação militar que tem impacto em todo o mundo. Tem impacto também na Europa, porque, designadamente a Espanha e a Itália, têm uma boa percentagem do seu petróleo que provém do Golfo, mas tem um impacto muito significativo também na Ásia. Coreia do Sul, o Japão, a China, a própria Singapura, que é o sítio do bunkering para todos os navios, porque o petróleo lá é muito mais barato, ou o crude lá é muito mais barato, estão seriamente afetados. Isto vai ser um jogo multipolar, em que os interesses vão, de facto, digladiar a sério, porque estamos a tratar de assuntos absolutamente cruciais para estes países.

Fonte: CNN



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Inicia pavimentação da estrada Zona Verde/Ndlavela

Desmobilizados da Renamo criam comissão de gestão para assumir liderança do partido

Dia Internacional do Acesso Universal à Informação