Cabo Delgado: O que mudaria sem as tropas do Ruanda?

 O Ruanda ameaça retirar as suas tropas de Cabo Delgado se não houver novo financiamento da UE a partir de maio. A possível saída gera incerteza sobre a segurança na região e divide opiniões da população.

Alguns residentes de Cabo Delgado consideram que o período de permanência já foi suficiente e que uma eventual saída das tropas do Ruanda não seria negativa.

"Era previsível e o Governo devia estar preparado para poder fazer frente a esta questão ao seu nível. Um apoio deste tipo não era para ficar eternizado", comenta o político Santos Abílio.

Ainda assim, o Governo moçambicano tem investido pouco nas Forças de Defesa e Segurança, aponta Abílio, apesar do país ter ao seu dispor recursos que permitiram equipar o Exército "até ao nível do próprio Ruanda".

"Mas o que está a acontecer é que o Governo de hoje não tem agenda com as nossas forças de defesa, não tem agenda com a educação, não tem agenda com a saúde, não tem agenda com nada", acrescenta.

"Não vamos ficar seguros"

É também por isso que outros cidadãos defendem que a presença ruandesa continua a ser crucial, face à persistência dos ataques terroristas.

Na visão de Maulana Assumane, por exemplo, os grupos armados temem sobretudo as Forças de Defesa do Ruanda e uma eventual retirada poderá levar à deterioração do clima de segurança.

"Para mim, os ruandeses têm de ficar. Quando estão lá em Mocímboa da Praia e em Palma, sentimos que temos defesa. [Mas se] regressarem ao seu país, vamos ficar de qualquer maneira, sem defesa", afirma.

Esta posição é também partilhada pelo ativista social Aly Caetano, que entende que Moçambique ainda não está preparado para garantir a segurança da região depois de os militares ruandeses regressarem a Kigali.

"Seria prematura a saída do Ruanda", diz Caetano. "Em primeiro lugar, ainda há défices logísticos das nossas tropas para combater o terrorismo. Por outro lado, está a decorrer o processo de formação, que não penso que aconteça durante dois ou três anos, para ter habilidades suficientes para combater o terrorismo."

Além disso, segundo o ativista, "ainda é a tropa do Ruanda que gera mais simpatia e transmite maior segurança às comunidades."

Apoio necessário

Após a publicação do anúncio sobre a pretensão de saída do Ruanda de Cabo Delgado, houve vários comentários de celebração nas redes sociais e em diferentes círculos de conversa.

Contudo, Aly Caetano, ativista bastante inserido nas comunidades rurais de Cabo Delgado, acredita que a maior parte dos que celebram o eventual abandono do Ruanda não conhece a realidade do teatro de operações.

"Entendo que alguma parte da sociedade esteja a festejar o facto da possível saída dos ruandeses. Mas, em termos práticos, quem tem acesso às comunidades e trabalha em Cabo Delgado sabe que a insegurança continua", refere Caetano.

Fonte: DW



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