Cabo Delgado: Fragilidade de assistência devido à violência
ONU alerta que as operações humanitárias continuam "altamente frágeis" no norte de Moçambique devido a múltiplos riscos sobrepostos, com pelo menos oito mortos em 33 ataques armados contra civis registados em fevereiro.
"Em fevereiro, o acesso humanitário nas províncias de Cabo Delgado e Nampula, norte de Moçambique, foi limitado pela violência contínua contra civis, hostilidades armadas, engenhos explosivos improvisados, desinformação relacionada com a cólera, chuvas fortes e desafios logísticos", lê-se num relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).
De acordo com o documento, em Cabo Delgado, o número de incidentes de segurança diminuiu ligeiramente, de 75 em janeiro para 70 em fevereiro, uma redução que para aquela agência da ONU não melhora o acesso para a prestação de ajuda na região.
"Os civis continuam a enfrentar riscos de proteção significativos e as avaliações precisas das necessidades são dificultadas pela insegurança e pelo isolamento. Foram registados um total de 33 incidentes em cinco distritos [Mocímboa da Praia, Macomia, Meluco, Muidumbe e Palma], contra 43 em janeiro", refere-se no relatório.
Rotas logísticas importantes afetadas
Segundo o OCHA, muitos dos ataques e incidentes, que resultaram na morte de oito civis, raptos e deslocações temporárias, ocorreram em zonas remotas e em ilhas com presença humanitária limitada, complicando os esforços para estimar o número de deslocados, avaliar as suas necessidades e dar uma resposta eficaz.
"As operações militares e os ataques de grupos armados não estatais continuam a perturbar rotas logísticas importantes, afetando diretamente a entrega de ajuda humanitária e aumentando as preocupações com a proteção dos civis", indica o OCHA, referindo ainda que as hostilidades entre grupos armados não estatais e as forças de segurança conjuntas do Governo, incluindo as Forças de Defesa do Ruanda (FDR), continuaram em fevereiro, tendo sido registados 21 incidentes.
Suspensão da circulação
Ainda conforme o documento, os ataques de helicópteros aumentaram as preocupações com possíveis ataques indiscriminados e os ataques dos grupos a comboios militares ao longo do corredor da Estrada 380, a principal rota de abastecimento que liga o sul e o norte de Cabo Delgado, levaram a mais de uma semana de suspensão da circulação, atrasando o transporte de mercadorias, incluindo carga humanitária.
O OCHA refere ainda que no mesmo período verificou-se que os engenhos explosivos improvisados continuam a representar uma ameaça na região, com o registo de três incidentes em Macomia e Mocímboa da Praia, um número inferior aos oito registados em janeiro.
Cólera e o aumento da violência
Já a desinformação sobre a cólera está a impulsionar cada vez mais a violência comunitária, "prejudicando os esforços de saúde pública e destacando a necessidade urgente de estratégias de comunicação e de gestão de risco", explica-se no documento.
"Cerca de 13 incidentes de violência comunitária motivados por desinformação e informações falsas relacionadas com a cólera foram registadas em fevereiro, (...). Comunidades vandalizaram estruturas de tratamento da cólera, ameaçaram profissionais de saúde, agrediram fisicamente líderes locais e incendiaram uma ambulância e outros bens, obrigando à suspensão dos serviços", descreve a agência da ONU.
A ACLED estima que Cabo Delgado registou cinco eventos violentos em duas semanas, quatro envolvendo extremistas do Estado Islâmico, com 30 mortos, elevando para praticamente 6.500 o total de óbitos desde 2017.
Fonte: DW
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