"Corrida ao nuclear é mais provável" e a "probabilidade de catástrofe aumenta". Voltámos a viver num tempo sem acordo nuclear

 

A CNN Portugal colocou três questões sobre os impactos do fim do acordo de não-proliferação nuclear entre EUA e Rússia ao Bulletin of the Atomic Scientists, criadores do Relógio do Juízo Final, e Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI). Estas foram as preocupantes respostas

Acabou o único acordo de não-proliferação de armas nucleares que restava entre EUA e Rússia. Com o fim do New START as duas superpotências deixam de estar restringidas a um máximo de 1.550 ogivas e deixam de existir as rotineiras inspeções aos arsenais de ambos os lados.

Esta é uma das causas que fez com que o relógio do juízo final avançasse. Já só faltam "85 segundos para a meia-noite [como quem diz para a autodestruição humana]." O famoso Doomsday Clock, que analisa e mede o quão mais próximo está a humanidade da autodestruição, colocou, na edição de 2026, o ponteiro mais perto do que nunca das 00:00.

Numa tentativa de ter uma visão mais abrangente sobre o real impacto do fim do New START, a CNN Portugal colocou três perguntas ao Bulletin of the Atomic Scientists, criadores do Doomsday Clock, e ao Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) sobre a eventual corrida ao nuclear, o início de uma nova ordem mundial moldada pela lei do poder e, no meio de tudo isto, como fica a Europa.

As respostas dadas em exclusivo à CNN Portugal são da autoria de Alexandra Bell, presidente e CEO do Bulletin of the Atomic Scientists e de Vladislav Chernavskikh, investigador do Programa de Armas de Destruição Maciça do SIPRI e antigo associado no Centro de Estudos de Energia e Segurança (CENESS), sediado em Moscovo. A escolha das duas organizações procurou analisar a problemática do modo mais abrangente possível, sendo o Bulletin of the Atomic Scientists uma organização norte-americana, o SPRI uma instituição europeia e tendo Vladislav Chernavskikh um vasto conhecimento sobre o arsenal e doutrina nuclear russa. 

1. O fim do New START aumenta significativamente o risco de uma nova e acelerada corrida ao armamento nuclear?

Alexandra Bell: Há quem afirme que já estamos numa nova corrida ao armamento, mas o fim das restrições impostas aos dois maiores arsenais nucleares do mundo tornará, sem dúvida, as coisas mais perigosas para todos neste planeta.

Vladislav Chernavskikh: O tratado New START estabeleceu limites para o número de armas nucleares estratégicas que a Rússia e os EUA podem ter implantadas em sistemas de lançamento. O New START também proporcionou um nível de transparência mútua através do intercâmbio de dados e de disposições de verificação que permitiram a ambas as partes evitar as piores presunções sobre as capacidades nucleares da outra parte e uma corrida desnecessária ao armamento.  

Sem transparência e limites estabelecidos, a corrida ao armamento nuclear é significativamente mais provável. 

Tanto a Rússia como os EUA podem aumentar rapidamente as suas capacidades nucleares, recorrendo aos stocks existentes de ogivas e veículos de lançamento que estão atualmente colocados nas suas reservas. Se um dos lados aumentar os arsenais nucleares, o outro lado pode sentir-se compelido a fazer o mesmo.

Os EUA podem sentir-se pressionados a instalar mais armas nucleares para responder tanto ao crescimento nuclear da China como ao desenvolvimento dos chamados sistemas nucleares “exóticos” da Rússia, incluindo torpedos nucleares, mísseis de cruzeiro e armas hipersónicas.

A Rússia pode ainda considerar necessário utilizar mais armas nucleares devido ao desenvolvimento contínuo da defesa estratégica contra mísseis por parte dos EUA, incluindo os planos da administração Trump para edificação do sistema “Golden Dome”, e devido ao facto de os Estados da NATO na Europa estarem a desenvolver e a colocar em campo armas avançadas de ataque de precisão de longo alcance que podem pôr em risco as forças nucleares russas.

2. Com o fim do último acordo bilateral de controlo de armas nucleares entre os Estados Unidos e a Rússia, vamos assistir a uma mudança de uma ordem internacional baseada no poder da lei para uma ordem internacional cada vez mais moldada por políticas de poder? Que implicações poderá isto ter uma estabilidade mundial estratégica?

Alexandra Bell: Estamos a assistir a um abandono da ordem internacional baseada nas regras em prol de uma abordagem de soma zero das relações internacionais. em que o vencedor leva tudo. Os riscos existenciais não podem ser geridos sem cooperação global. Os riscos nucleares não são limitados por fronteiras soberanas, nem os efeitos dos conflitos nucleares. Se os países com armas nucleares deixarem de comunicar ou de cooperar na redução dos riscos nucleares, a probabilidade de catástrofe aumentará rapidamente. 

Os Estados Unidos e a Rússia ainda fazem parte de alguns outros acordos bilaterais de controlo de armas, como o Acordo de Notificação de Lançamento de Mísseis Balísticos de 1988, mas, de um modo geral, os dois países estão a entrar num território desconhecido e perigoso. Com a expiração do New START, não há restrições aos arsenais nucleares estratégicos da Rússia e dos EUA pela primeira vez em meio século. É verdadeiramente surpreendente ver os líderes desprezarem todo o trabalho e esforço que foi feito para criar estabilidade entre os países que ainda controlam mais de 90% do arsenal nuclear do mundo.

2. Com o fim do último acordo bilateral de controlo de armas nucleares entre os Estados Unidos e a Rússia, vamos assistir a uma mudança de uma ordem internacional baseada no poder da lei para uma ordem internacional cada vez mais moldada por políticas de poder? Que implicações poderá isto ter uma estabilidade mundial estratégica?

Alexandra Bell: Estamos a assistir a um abandono da ordem internacional baseada nas regras em prol de uma abordagem de soma zero das relações internacionais. em que o vencedor leva tudo. Os riscos existenciais não podem ser geridos sem cooperação global. Os riscos nucleares não são limitados por fronteiras soberanas, nem os efeitos dos conflitos nucleares. Se os países com armas nucleares deixarem de comunicar ou de cooperar na redução dos riscos nucleares, a probabilidade de catástrofe aumentará rapidamente. 

Os Estados Unidos e a Rússia ainda fazem parte de alguns outros acordos bilaterais de controlo de armas, como o Acordo de Notificação de Lançamento de Mísseis Balísticos de 1988, mas, de um modo geral, os dois países estão a entrar num território desconhecido e perigoso. Com a expiração do New START, não há restrições aos arsenais nucleares estratégicos da Rússia e dos EUA pela primeira vez em meio século. É verdadeiramente surpreendente ver os líderes desprezarem todo o trabalho e esforço que foi feito para criar estabilidade entre os países que ainda controlam mais de 90% do arsenal nuclear do mundo.

Isto pode levar a erros de cálculo, mal-entendidos, perceções erradas que conduzem a uma corrida ao armamento ou mesmo a ações cinéticas. Isso é perigoso para todos os países, e não apenas para os países da Europa.

O abandono imprudente das medidas de controlo dos armamentos poderá conduzir à proliferação nuclear na Europa ou noutros locais, aumentando ainda mais os riscos nucleares. Certo é que a segurança da Europa estava mais bem servida caso Washington e Moscovo voltassem à mesa das negociações com a prioridade de manter a estabilidade entre os respetivos arsenais nucleares. 

♦♦♦

Vladislav Chernavskikh: Dado o atual clima político, na ausência de novas medidas de controlo de armamento ou de redução do risco nuclear, é provável que continuemos a assistir à infeliz tendência de aumento da dependência da dissuasão nuclear entre os Estados com armas nucleares e os seus aliados da NATO na Europa.

Atualmente, há mesmo conversas sobre a possibilidade de alguns países europeus se separarem do TNP e desenvolverem o seu próprio arsenal nuclear, o que não aumentaria a segurança, mas acabaria por criar ainda mais riscos e vulnerabilidades para esses Estados.

Seria benéfico para a Europa refletir de forma mais profunda e estrategicamente sobre o método que vai escolher para equilibrar as suas capacidades de dissuasão convencionais com medidas de redução dos riscos que poderiam ajudar a minimizar a possibilidade de uma escalada com a Rússia.

A Europa poderia também ser um mediador entre EUA, França e Reino Unido [os dois países europeus com armamento nuclear para além da Rússia], de um lado; e Rússia e China, do outro, nas discussões sobre estabilidade estratégica e controlo de armas.

Fonte: CNN



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