Como a Hungria se apoderou de Bruxelas e de Kiev com um duplo veto, deixando a Ucrânia no limbo
O ministro húngaro dos Negócios Estrangeiros acusou a Ucrânia de mentir e repreendeu Kaja Kallas, numa reunião tensa em que Budapeste usou o seu poder de veto duas vezes, para fúria dos Estados-Membros que apoiam a Ucrânia.
O ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, entrou em Bruxelas na defensiva, exigindo seriedade aos jornalistas, enquanto o seu país ameaçava vetar duas vezes um empréstimo de emergência para a Ucrânia e um novo pacote de sanções contra a Rússia, devido ao que denunciou ser uma sabotagem coordenada entre Kiev, Bruxelas e a oposição húngara.
No interior da sala, o ministro húngaro voltou a insistir.
Segundo diplomatas com conhecimento de uma reunião controversa de ministros dos Negócios Estrangeiros, realizada a 23 de fevereiro, na véspera do quarto aniversário da guerra da Rússia contra a Ucrânia, Szijjártó insistiu que a Ucrânia estava a brincar, interrompendo o trânsito de petróleo russo barato através de um importante oleoduto que liga a Rússia à Hungria por razões políticas.
A polémica remonta a um incidente ocorrido no final de janeiro, que afectou o oleoduto Druzhba. A União Europeia e a Ucrânia argumentam que o oleoduto foi atingido por um drone russo e ficou danificado na sequência do incidente, o que reduziu o trânsito normal.
A Ucrânia, que está a enfrentar um inverno rigoroso, uma vez que as suas infra-estruturas energéticas também foram gravemente comprometidas, afirma que a situação no terreno é complexa devido aos constantes ataques da Rússia.
Esta mensagem foi sublinhada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, que participou na reunião através de uma conferência telefónica e afirmou que foram envidados vários esforços para resolver a situação.
Para quebrar o impasse, o ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês, Xavier Bettel, sugeriu que inspetores da Hungria e da Eslováquia,também um comprador de petróleo russo, pudessem ser enviados ao local para examinara estrutura danificada, de acordo com uma pessoa familiarizada.
O Sybiha respondeu que teria de pedir autorização e que iria contactar diretamente a Hungria e a Eslováquia.
Szijjártó disse numa conferência de imprensa, horas mais tarde, que o seu homólogo ucraniano tinha "balbuciado confusamente", chamando-lhe "exposição total". A Ucrânia nega as acusações.
Quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano se desligou da reunião, Szijjártó tomou a palavra mais uma vez, acusando o seu homólogo ucraniano de mentir, de acordo com pessoas familiarizadas com o conteúdo da discussão, argumentando que a explosão atingiu um contentor próximo e não o oleoduto.
A Ucrânia insiste que a origem dos danos é um ataque de um drone russo. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, disse na terça-feira que as imagens de satélite confirmam esse facto.
De regresso a Bruxelas, o ministro húngaro também se dirigiu a Kaja Kallas, a chefe da diplomacia da União Europeia e presidente da reunião, por não lhe ter dado a palavra para responder diretamente ao seu homólogo ucraniano.
Insistiu que a questão é política, não técnica, e que a Hungria não reverteria o seu veto até que os fluxos da Druzhba fossem retomados. Para os ministros europeus que pretendiam selar o pacote de medidas, tornou-se claro que a reunião terminaria sem um acordo.
Para agravar o imbróglio, a Eslováquia juntou-se à Hungria na condenação da Ucrânia, evitando qualquer menção à Rússia durante as trocas de impressões, segundo diplomatas informados. Horas depois, a Eslováquia anunciou que iria cortar o fornecimento de energia eléctrica de emergência à Ucrânia como retaliação.
Fonte: Euronews
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