Revolta dos liceus em França alastra às universidades e entra numa fase de violência



Revolta dos liceus em França alastra às universidades e entra numa fase de violência

Mais de 1000 estabelecimentos foram afetados pelos protestos. Só num dia foram detidas quase 2000 pessoas e 305 elementos das forças de segurança ficaram feridos. O Governo francês fala em "violência urbana", mandou fechar mias de 400 estabelecimentos e proibiu manifestações junto a esses locais, mas já foi lançado um novo apelo à mobilização para terça-feira, 6 de outubro.

O movimento que começou há cerca de dez dias num liceu dos arredores de Paris espalhou-se por França, chegou às universidades e atingiu esta quinta-feira um ponto de viragem. Mais de mil estabelecimentos de ensino foram afetados, quase 2.000 pessoas foram detidas num único dia e os confrontos entre manifestantes e forças de segurança multiplicaram-se em várias cidades. O Governo fala agora em “violência urbana”, enquanto organizações de estudantes insistem que as reivindicações na origem do movimento continuam sem resposta.

Segundo o Ministério da Educação francês, 1.027 estabelecimentos de ensino foram afetados na quinta-feira, 1 de outubro, e 222 foram bloqueados. Na segunda-feira eram 180 os estabelecimentos afetados. O número representa mais de um estabelecimento em cada quatro, segundo o balanço divulgado pelo ministério e citado pelo "Le Monde".

Ainda de acordo com o Ministério do Interior francês, 1.949 pessoas foram detidas na quinta-feira, sobretudo por suspeitas relacionadas com violência, agressões contra a autoridade pública e participação em ajuntamentos. O mesmo balanço aponta para 305 elementos das forças de segurança feridos. Desde segunda-feira, o número acumulado de detenções chegava às 3.178, enquanto o Ministério da Justiça contabilizava 1.793 medidas de custódia policial.

A origem do movimento está num liceu de Créteil, na região de Paris. A mobilização começou a 21 de setembro no liceu Saint-Exupéry e foi-se estendendo primeiro pela região parisiense e depois para outras cidades. As reivindicações centram-se na falta de professores, nas condições materiais das escolas, na dimensão das turmas e nos recursos disponíveis para o ensino.

Segundo o "Le Monde", o movimento começou por ser sobretudo uma contestação às condições de escolaridade e foi ganhando dimensão à medida que os bloqueios se multiplicaram. A União Sindical dos Liceus apelou entretanto à extensão da mobilização a todo o país.

Milhões de horas de aulas por assegurar

A falta de professores é uma das principais razões apresentadas pelos estudantes. Segundo dados do Ministério da Educação citados pelo "Le Monde", durante o ano letivo de 2024-2025 ficaram por assegurar 15,4 milhões de horas de aulas devido a ausências de professores que não foram substituídos. O jornal cita também um levantamento do sindicato SNES-FSU segundo o qual, no início deste ano letivo, havia pelo menos um professor em falta em 53% dos estabelecimentos abrangidos pelo levantamento.

A contestação ganhou força a 29 de setembro, coincidindo com uma jornada nacional de greve na função pública. Segundo o Ministério do Interior, nesse dia foram detidas 440 pessoas. Na quarta-feira, 30 de setembro, o número subiu para 625. A partir daí, começaram a multiplicar-se os episódios violentos. Foram vistos contentores de lixo incendiados em várias cidades, registaram-se confrontos com a polícia e alguns estabelecimentos sofreram danos graves. Em Nantes, o liceu Nelson-Mandela foi atingido por um incêndio que danificou parcialmente o hall do edifício.

Em Lyon, há relatos de confrontos junto a vários estabelecimentos e pelo menos um liceu também sofreu um incêndio provocado por contentores que atingiu a fachada. Já em Paris, um incêndio de contentores e bicicletas elétricas atingiu a fachada do liceu profissional Marcel-Deprez.

Em alguns locais, porém, os jornalistas do "Le Monde” encontraram uma realidade diferente dos simples bloqueios de escolas. Havia estudantes que participavam para exigir melhores condições de ensino e outros que se envolviam nos confrontos. Funcionários de alguns estabelecimentos disseram ter encontrado junto aos liceus pessoas que não pertenciam às respetivas escolas.

Aumento da violência atinge professores

O aumento da violência atingiu também professores e responsáveis de escolas. Segundo o Ministério da Educação francês 65 membros do pessoal da Educação e 170 alunos tinham ficado feridos desde o início da mobilização.

Em Rouen, segundo a academia da Normandia e o relato da TF1/LCI, os diretores de dois liceus foram agredidos e ficaram ligeiramente feridos. Outros casos de agressões contra responsáveis escolares foram registados noutras cidades.

A violência chegou ainda aos transportes. Em Estrasburgo, Orleães, Nice, La Rochelle e Marselha, os transportes públicos foram interrompidos durante parte do dia para limitar os confrontos.

Perante esta escalada, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma reunião de crise. Segundo o Governo francês, a mobilização deixou de corresponder apenas a uma contestação escolar e apresenta agora características de “violências urbanas”. O ministro da Educação, Édouard Geffray, afirmou que o movimento tinha começado com reivindicações legítimas, mas que estava a ser tomado por grupos violentos. O Governo aponta agora responsabilidades políticas. Segundo declarações do executivo francês, a La France Insoumise (LFI), partido de Jean-Luc Mélenchon, e grupos da esquerda radical estariam a contribuir para a organização ou amplificação da mobilização. O Ministério do Interior afirmou que parte da violência estaria a ser “instrumentalizada” para fins políticos. A LFI rejeita essas acusações e afirma que a contestação tem origem nas condições de ensino e a resposta policial está a contribuir para aumentar a tensão. Mélenchon apelou também à não violência dos métodos de luta e afirmou que as imagens de contentores incendiados prejudicam a mobilização.

As organizações estudantis também rejeitam que o movimento possa ser reduzido à ação da LFI.

Ao mesmo tempo que aumentava a tensão nos liceus, o movimento começou a chegar às universidades. Segundo a União Estudante, citada pela Public Sénat cerca de 30 campus estavam bloqueados ou envolvidos em ações na manhã de quinta-feira, em cidades como Paris, Estrasburgo, Marselha, Lyon, Reims, Poitiers e Nanterre.

Nova mobilização a caminho

A entrada das universidades acrescentou novas reivindicações à mobilização. Entre elas estão questões relacionadas com o acesso ao ensino superior e com os custos de inscrição.

A resposta do Governo passou entretanto para uma nova fase. Cerca de 400 estabelecimentos deverão permanecer encerrados ou funcionar com aulas à distância, por precaução. Foram proibidas manifestações nas imediações dos estabelecimentos encerrados.

O ministro da Educação, Édouard Geffray, vai reunir-se esta sexta-feira com associações de estudantes, representantes de pais e sindicatos de professores. Será criada uma plataforma de concertação onde os estudantes poderão apresentar as suas reivindicações, seguindo-se uma restituição nacional destinada a apresentar respostas.

Mas o movimento não dá sinais de terminar com estas medidas. Já foi lançado um novo apelo à mobilização para terça-feira, 6 de outubro.


Fonte: Expresso

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