“Não é deles; historicamente, é território russo”: Putin pronto a negociar acordo final, mas rejeita “congelar” linha da frente no Donbass



Após visita do emissário da Casa Branca, o Presidente russo afirmou que a Rússia está pronta a sentar-se nas negociações tripartidas com Ucrânia e EUA para alcançar acordo de paz definitivo para conflito que se aproxima do 5.º aniversário.

A Rússia está pronta para retomar negociações tripartidas com Ucrânia e Estados Unidos, mas para alcançar um acordo de paz definitivo, e não um cessar-fogo "curto", declarou esta quinta-feira o Presidente Vladimir Putin, que reiterou a exigência de território ucraniano.

"O objetivo destas discussões será tratar a questão das garantias de segurança, tanto para a Ucrânia como para a Rússia (...) no âmbito de um acordo final, e não após uma espécie de breve pausa nos combates", disse Putin a um jornalista da televisão estatal.

As futuras conversações, após o conflito armado, deverão incluir também um debate sobre a “arquitetura de segurança europeia”, adiantou Putin, que se reuniu com o emissário da Casa Branca, Steve Witkoff, quarta-feira em São Petersburgo.

Segundo Putin, Witkoff "destacou que, se forem abordadas questões relacionadas com a segurança futura tanto da Ucrânia como da Rússia, então, naturalmente, será também necessário falar sobre a arquitetura de segurança europeia". "De um modo geral, concordo com isso", assegurou Putin.

O Presidente russo rejeitou categoricamente a última proposta apresentada pelo seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, para "congelar" a atual linha da frente no leste do país - o Donbass, que compreende as regiões de Donetsk e Lugansk - em troca do início de negociações diretas.

Putin refutou ainda a visão de Zelensky sobre a integridade territorial da Ucrânia, argumentando que toda a região oriental é “território russo”, invocando referendos sobre a independência realizados nas partes das duas províncias ucranianas sob ocupação russa.

Os referendos não foram reconhecidos internacionalmente como legítimos, à exceção de alguns aliados de Moscovo. Depois dos não reconhecidos referendos, as duas províncias foram incorporadas na Federação Russa. "A minha posição a este respeito é que este não é território deles; historicamente, é território russo", afirmou Putin, rejeitando tratarem-se de "perdas territoriais" da Ucrânia.

Putin insistiu ainda que qualquer ideia de uma vitória militar contra a Rússia é uma ilusão, e que Zelensky e os seus aliados devem abandonar esta estratégia, apesar de as forças russas não fazerem avanços significativos no terreno há vários anos e o conflito se aproximar do 5.º aniversário.

Putin desvalorizou ainda como "esquizofrenia política" a ideia de uma “ameaça russa” entre os países europeus, que têm vindo a lidar com crescente número de ataques híbridos atribuídos a Moscovo, incluindo contra infraestruturas críticas como aeroportos.

Zelensky, defendeu esta quinta-feira que o país não pode abdicar das cidades de Sloviansk e Kramatorsk, em Donetsk, porque se o fizesse, abriria caminho à Rússia chegar à província de Dnipro. "Podem apoderar-se de muitas das nossas cidades. O risco é real", advertiu. "Se lhes entregarmos as nossas cidades, o risco é enorme (...). Ninguém nos garante nada (...). Se retirarmos, onde estão as garantias de segurança?", perguntou Zelensky, numa entrevista concedida ao 'podcast' britânico "The Diary of a CEO".

O chefe de Estado ucraniano salientou também "quão injusto" seria entregar essas duas zonas de Donetsk, que são os últimos bastiões que restam à Ucrânia, não só nessa província, mas em toda a região oriental do Donbass, onde Lugansk já está sob controlo russo desde julho de 2022, apenas meses depois do início da invasão russa da Ucrânia, a 24 de fevereiro do mesmo ano.

Atualmente, a Rússia controla entre 75% e 85% de Donetsk, mas não as cidades de Kramatorsk e Sloviansk, zonas de grande importância simbólica e estratégica, que albergam um extenso polo industrial, do qual depende a economia local, e uma rede ferroviária e rodoviária vital para a ligação às províncias de Kharkiv e Dnipro. Se esses bastiões caíssem, a defesa ucraniana no resto do Donbass acabaria por colapsar.

Putin reafirmou há dias que o objetivo prioritário é "libertar" Donetsk do que resta do "regime de Kiev". Zelensky estimou que a Rússia controla entre 18% e 19% do território ucraniano e alertou que Putin também tem como alvo cidades como Zaporijia e Mykolaiv, "embora não o diga diretamente".

O líder ucraniano voltou também a sublinhar que a Ucrânia já está a fazer "uma grande cedência" à Rússia só ao "manter a situação atual" e na quarta-feira, numa entrevista ao canal televisivo norte-americano Fox News, manifestou inclusive disponibilidade para "congelar" a atual linha da frente, caso isso permitisse avançar para um plano de paz.

A linha da frente estende-se por cerca de mil quilómetros e as forças russas controlam aproximadamente 20% do território ucraniano, incluindo a península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.


Fonte: Expresso

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