Um morto e dois mil deslocados em ataque a acampamento turístico de Carlos Queiroz em Moçambique

 


As Nações Unidas têm alertado para um aumento da violência em Cabo Delgado desde agosto deste ano e o espaço turístico onde investiu o ex-selecionador nacional português situa-se numa das zonas onde os ataques se alastraram.

Pelo menos uma pessoa morreu e cerca de duas mil foram deslocadas após um ataque que destruiu um acampamento turístico associado ao ex-treinador luso-moçambicano Carlos Queiroz, na província moçambicana de Niassa, avançaram na sexta-feira à noite as autoridades.

"Temos mais de duas mil pessoas no local de acolhimento", disse o secretário de Estado da província do Niassa, Silva Livone, citado pela comunicação social local.

Para Livone, o número de vítimas continua a surpreender devido à dimensão daquele ataque surpresa registado na quinta-feira na Coutada de Marangira, durante o qual o acampamento turístico da Mozambique Wild Adventures (MWA) foi saqueado, queimado e vandalizado, tendo sido levadas viaturas e incendiaadas residências.

"Deixaram-nos avultados danos materiais, relativamente poucos danos humanos, mas ainda estamos no terreno a trabalhar. Tivemos muita pressão durante a noite de ontem, não dormimos", descreveu o dirigente, referindo-se à situação que obrigou ao deslocamento de cerca de duas mil pessoas, que, garantiu, estão a receber assistência num centro de acolhimento. Há uma vítima mortal.


Segundo Silva Livone, os autores do ataque provêm da província vizinha de Cabo Delgado, também no norte do país, rica em gás, e procuram reforçar a sua logística através de incursões recorrentes em Niassa.

"Do 'modus operandi', do comportamento que tiveram, literalmente, conduziu-nos a esta conclusão de que os terroristas vieram à procura de reforçar a sua base logística em termos de mantimentos", afirmou Livone, apelando à vigilância das comunidades, enquanto decorrem trabalhos para apurar os impactos gerais daquela incursão armada.

Até ao momento, acrescentou, os atacantes incendiaram viaturas, um centro de saúde, o acampamento da MWA e um posto policial.

A Lusa noticiou anteriormente que o ataque na Coutada de Marangira provocou prejuízos de milhões de euros num acampamento de safáris associado ao ex-treinador luso-moçambicano Carlos Queiroz, segundo meios de comunicação locais.

Desde o ataque ao local, cuja concessão foi atribuída pelo Governo em 2014, não existem comunicações com a área, mas a organização ambientalista Mozambique Bio, citando fontes locais, refere a “destruição e perda de um investimento estimado em 3,5 milhões de dólares", realizado "ao longo de mais de uma década pelo empresário e professor Carlos Queiroz”.

A organização acrescenta que se encontravam no local três turistas estrangeiros, que estão em segurança, "apesar de terem perdido documentos pessoais e dinheiro durante o assalto", enquanto “cerca de 15 colaboradores do acampamento terão abandonado as instalações e procurado refúgio no mato”.

Desde 2017, a província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhões de deslocados. Esses ataques alastraram-se, com incursões pontuais, em 2025, às vizinhas províncias de Niassa e Nampula.

A violência armada em Cabo Delgado provocou 1.401 deslocados em agosto e os incidentes de conflito aumentaram 10% no primeiro semestre face ao período homólogo, alertaram esta sexta-feira as Nações Unidas num documento divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

Estados Unidos desaconselham viagens

Os Estados Unidos alertaram os seus cidadãos para evitarem viagens à província moçambicana de Niassa, depois deste ataque.

Em alertas das embaixadas norte-americanas em Moçambique e na África do Sul, a que a Lusa teve hoje acesso e que se mantêm em vigor desde o ataque de quinta-feira, Washington refere estar ciente da incursão à estância de caça, na fronteira entre as províncias de Niassa e Cabo Delgado, no norte de Moçambique, acrescentando que as Forças Armadas de Moçambique fazem operações na área.

Os avisos recomendam por isso aos cidadãos dos EUA que evitem a zona fronteiriça entre Niassa e Cabo Delgado e que "não viajem para a Reserva Especial do Niassa por qualquer motivo". Na sequência do ataque, referem ainda que três turistas norte-americanos foram evacuados da área.

O documento recorda ainda que a Reserva Especial do Niassa integra a categoria máxima de risco do aviso de viagem do Departamento de Estado norte-americano, designada por "Do Not Travel" ("Não Viaje"), classificação que abrange igualmente a província de Cabo Delgado - a mais afetada pelas incursões armadas com milhares de mortos e deslocados desde 2017 - e alguns distritos do norte de Nampula devido à ameaça terrorista.

O Departamento de Estado já tinha atualizado, em 21 de agosto, o seu aviso de viagem para Moçambique, recomendando "cautela acrescida" devido ao terrorismo, criminalidade, fragilidades do sistema de saúde e risco de agitação social.

Nesse documento, Washington advertia que grupos terroristas ativos no norte de Moçambique podem atacar áreas públicas e destinos turísticos com pouco ou nenhum aviso, incluindo estâncias de luxo frequentadas por caçadores internacionais em regiões remotas, referindo ainda que as forças de segurança podem ter limitações na capacidade de resposta rápida a incidentes nestas zonas.

O aviso destaca igualmente a frequência de crimes violentos e furtos em locais turísticos, as limitações das infraestruturas de saúde e a possibilidade de manifestações espontâneas que podem tornar-se violentas e bloquear estradas e postos fronteiriços.


Fonte: Expresso

Comentários

Mensagens populares deste blogue

‘Smell’ of war comes to St Petersburg as Ukraine hammers Russian refineries

China’s Xi, North Korea’s Kim pledge to boost ties at rare Pyongyang summit

Iran war day 95: Trump pushes Lebanon truce after Tehran vows to end talks