Suécia no fio da navalha e à beira de longas negociações após legislativas renhidas

 


Oposição progressista leva vantagem de três assentos parlamentares, mas ainda falta contar votos da emigração. O primeiro-ministro conservador Ulf Kristersson e a sua antecessora social-democrata Magdalena Andersson já exploram alianças que lhes permitam manter ou recuperar o poder.

Após uma campanha que foi comparada a um “leilão” de promessas, o eleitorado sueco votou, este domingo, espelhando a profunda divisão do país. O resultado provisório das legislativas indica, na manhã de segunda-feira, que o conjunto de partidos que apoiam o Governo de direita elegeu 173 deputados, ao passo que a oposição de esquerda soma 176. A diferença de votos entre os dois blocos é inferior a 1%.

Os números finais não devem ser conhecidos antes de quarta-feira, data em que entra a contagem dos votos dos suecos emigrados. A participação de quase 80% dos oito milhões de recenseados foi algo mais baixa do que nas anteriores legislativas (84%). A rádio pública sueca SVT calcula em 90% as chances de a oposição formar Governo'.

Magdalena Andersson, chefe dos sociais-democratas — o partido mais votado, com 28% dos sufrágios e cem assentos parlamentares, mas um dos desempenhos mais fracos desde a introdução do sufrágio universal, em 1921 —, mostra-se confiante, mas prudente: “Se este resultado continuar válido, a Suécia terá um novo Governo”, afirmou aos seus apoiantes, domingo à noite. Nas legislativas de há quatro anos, começou por cheirar a vitória, mas acabou por perder.

Para voltar ao posto que ocupou entre 2021 e 2022, a social-democrata teria de contar com o Partido de Esquerda (8,23%, 29 deputados); o Partido do Centro (liberal, 7%, 25 assentos); e os Verdes (6,1%, 22 eleitos). No bloco alternativo, que apoia o Governo cessante, estão o Partido Moderado do primeiro-ministro Ulf Kristersson (conservadores, 20%, 70 assentos); os Democratas Suecos (extrema-direita, 17,6%, 62 lugares); os Democratas-Cristãos (6,2%, 22 assentos) e os Liberais (5,4%, 19 deputados).

Governo conservador incluiria extrema-direita

Embora as primeiras contagens favoreçam Andersson, a subida da extrema-direita ao longo da noite eleitoral deixou tudo no limbo, até porque falta contar pelo menos 200 mil votos da diáspora, quando os blocos estão separados por menos de 30 mil. Caso Kristersson consiga manter-se no poder, haverá uma diferença de monta. Os Democratas Suecos, que apoiavam o Executivo sem o integrar, passariam a ter pastas ministeriais.

No sistema sueco, forma Governo quem conseguir uma aliança contra a qual não haja uma maioria no Riksdag, o Parlamento, formado por 349 membros. Vigora uma cláusula-barreira de 4%, isto é, forças políticas com menos do que essa votação não entram.

Cabe ao presidente do Riksdag, hoje Andreas Norlen (Partido Moderado), avaliar quem tem a melhor hipótese de se tornar primeiro-ministro, que é investido se não houver 175 votos contra. Não se exige maioria de votos afirmativos, pelo que a abstenção pode ser forma de viabilizar um Governo minoritário, e estes não são raros na história política do país escandinavo. A negociação pode durar semanas ou meses.

Em estudos de opinião, os suecos indicaram o sistema de saúde, lei e ordem, imigração e economia como suas maiores preocupações. Num sintoma dos tempos de inflação generalizada e perda de poder de compra, o debate fixou-se no custo de vida. “Os partidos tentaram ultrapassar-se com promessas de mais dinheiro. Foi uma espécie de leilão”, comentou Fredrik Furtennbach, jornalista da SVT, citado pelo diário britânico “The Guardian”.

Ninguém quer eleições antecipadas

Kristersson não reconheceu a derrota, aguardando pelos resultados finais. “Ainda é questão aberta saber que Governo conduzirá a Suécia nos próximos anos. Faremos tudo por assegurar que esse Governo seja o melhor para o nosso país”, prometeu aos seus adeptos. Não faz questão de chefiar uma aliança exatamente igual à cessante.

A confirmar-se o regresso de Andersson ao poder, a social-democrata terá de negociar com os seus parceiros. O Partido do Centro tem-se recusado a participar numa solução de Governo que inclua o Partido de Esquerda, e este nega-se a apoiar um Executivo de que não faça parte. “O processo para formar Governo pode revelar-se muito complicado”, assumiu Norlen na televisão pública sueca. Kristersson pode apostar em seduzir o Partido do Centro caso este entre em rutura com o bloco progressista, admite o politólogo Tommy Möller.

Este docente da Universidade de Estocolmo afirmou ao jornal “Swedish Herald” que em caso de bloqueio à esquerda, e não desejando os principais partidos uma eleição antecipada, Andersson também poderia procurar um entendimento em que forças mais à direita tolerassem o seu governo, mesmo sem subscreverem um pacto com os sociais-democratas. “Não é impossível justificar isso com um argumento de responsabilidade.”

O académico acrescenta que “o partido responsável por uma eleição antecipada enfrentaria uma campanha muito difícil”, ao agastar o eleitorado. “Os políticos têm uma faca na garganta para encontrarem uma solução.”

Leis de imigração não vão ser afrouxadas

Andersson tem prometido maior gasto para assegurar a coesão social, e mexidas no sistema fiscal para o tornar mais justo. Reside aí outro potencial pomo de discórdia, com os centristas a recusar impostos sobre as grandes fortunas defendidos por verdes e esquerdistas. Estas duas formações também exigem reversões à dura política de imigração do Governo de Kristersson, que Andersson não parece contemplar.

No poder, a direita aboliu a residência permanente para refugiados, fez cair em 40 pontos percentuais o número de pedidos de asilo aceites e dificultou o acesso dos imigrantes a prestações sociais. Também acelerou a deportação dos que estavam em situação ilegal.

Sentiu-se nessa política o peso dos Democratas Suecos, herdeiros de uma formação política neonazi e cujo programa para estas eleições era ferozmente contra a imigração, associando-a à criminalidade. A sua participação na base de apoio do Executivo de Kristersson, ainda que na forma de acordo de incidência parlamentar, foi considerada um precedente relevante.

Para 2026, o partido chefiado por Jimmie Åkesson adotou o mote “Tornar a Suécia de novo a Suécia”, um eco do “Tornar a América grande de novo” do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ameaçando repatriamentos ao ponto de motoristas de autocarro se terem recusado a guiar veículos que exibissem tais anúncios, e dirigindo ataques a Magdalena Andersson vistos como sexistas, os Democratas Suecos acabaram por cair de segundo para terceiro, tendo perdido onze deputados.

Para tal pode ter contribuído o escândalo gerado pela ligação entre Gustav Gellerbrant, dirigente do partido, e o regime russo. Uma investigação jornalística revelou, dias antes da ida às urnas, que a sua namorada, Polina Malaberg — filha de um oficial soviético naturalizada sueca —, se dedicou a propagar desinformação russa, nomeadamente no âmbito de organizações financiadas por Moscovo.

“Houve muitas mentiras e rixas, mas, ao mesmo tempo, há tanta gente sensata por esse país fora!”, afirmou Magdalena Andersson. Um dos seus comícios propiciou um dos momentos mais divertidos da campanha, com Benny Andersson, da banda Abba, a adaptar a letra da famosa canção “Mamma Mia” ao nome da ex-primeira-ministra.



Fonte: Expresso

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